Cheguei nos 30. E uma chave virou aqui dentro de mim. Foi consequência dos danos dos últimos anos? Na véspera do meu aniversário eu estava triste e feliz ao mesmo tempo, aquele papo de crise dos 30, é real, mas eu já vivia bem antes de trintar. E acredito que a vida quis forjar um coração e uma mulher mais forte em mim, aos 30 eu não consegui comemorar meu aniversário no lugar onde eu sonhava desde os meus 17. Mistérios da vida. Mas dizer que eu estava triste, mentira. Eu estava feliz, fui a um restaurante italiano, comecei a conhecer aquela dos 30, exatamente no dia do meu aniversário, eu que sempre escolhi restaurantes asiáticos sem pensar duas vezes, estava me dirigindo a um italiano, pela primeira vez espontâneamente. Gostei dessa nova versão dela. Mas ela ainda chora por amor, mesmo tendo chegado aos 30, ninguém escapa, às vezes, o Jurandir tem um belo par de olhos e por azar é geminiano. A parte boa? O sofrimento dura 48 horas e já tenho que me preocupar com o que vou cozin...
Às vezes, o que sobra de uma história não é a revolta ou o inconformismo de Deus não ter ouvido as nossas preces, às vezes o que sobra de uma história, são os retalhos, os pedaços dos inteiros que fomos um dia. As cicatrizes não se apagarão nunca, nem da pele, nem da alma e é por isso, que a gente acaba por lembrar dos dias que fizemos as malas e fomos deixados sozinhos no terminal esperando por alguém que não apareceria e que nem pretendia aparecer. Renúncias. Nos lembramos dos dias que nos sentenciamos em lágrimas, em um sentimento que dói de um tanto sem tamanho, de não ter descobrido a verdade a tempo, quem é que não quer ser capaz de traduzir em palavras a abstratividade daquilo que nunca foi, aquele nó que dá na garganta, que bagunça o estômago e manda o nosso sono para uma sala de tortura.
A tristeza nunca passa, ela melhora, mas não vai embora, às vezes, os gatilhos de memória nos deixam pior, mas a fiel caneta no calendário, de dia após dia cumprir a promessa de seguir em frente precisa funcionar. Olha em cima da cama, quantos retalhos para nós costurarmos e construirmos um novo eu, porque o antigo não foi capaz de se defender, não foi capaz de gritar, protestar e principalmente, fugir. O antigo eu, acreditava em palavras, ignorava insultos, era fraco, mas em defesa daquele alguém que fomos algum dia, aquele eu não tinha consciência do que estava vivendo, porque diferente desse que tem sido gerado dentro de nós, ele acreditava que todas as pessoas poderiam lhe oferecer seu melhor lado, como uma criança, que oferece o que tem com um tímido sorriso no rosto, para um adulto.
Nas linhas das minhas costuras, tem lágrimas, saudades e superação. Choramos, porque não somos capazes de desejar essa dor nem para nosso maior inimigo. Temos saudades das pessoas alegres que fomos antes de todo o mal acontecer, mas por fim, também temos a superação, de que mesmo doendo, de que mesmo que as memórias nos deixem à beira da loucura, no outro dia acordamos serenamente bem, para continuar repetindo para nós mesmos: vai passar.
Tem azul, vermelho e amarelo também, tem estampa floral, tem estampa de listras e bolinhas e minha cara pálida, têm minhas mãos machucadas do trabalho que tenho construído, a reforma demora, precisa ficar bonito, precisamos reforçar os pontos, precisamos pôr palavras, melodias e paciência. Acordar dói, mas é necessário, e Deus está no controle de todas as coisas, espero que daqui algumas primaveras meus retalhos tenham se transformado em um belo vestido ou quem sabe num cobertor aconchegante pro meu coração, que esses retalhos me vistam do novo eu que mereço me transformar, não só eu, mas você também.
Continue a costurar seus retalhos,
Traga Rosas Para Mim 🌹🍃
